Coleção A OBRA-PRIMA de Cada Autor



Só penetramos bem as obras próximas de nós mesmos ou de nosso
tempo, pelo menos por algum aspecto.
Igualmente, só se amam os escritos cujo autor nos atrai por seu caráter e
por seu exemplo. Ora, Aristóteles, com a extrema dignidade de vida, a nobreza
de pensamento, o gosto por um justo equilíbrio, é para nós, por toda a sua
personalidade, um reconforto.
Com efeito, foi possível classificá-lo não apenas entre os "grandes
espíritos", mas também entre os "grandes corações". Na coleção de biografias
- quase de hagiografias - que levava este título, M. D. Roland-Gosselin chega a
esta conclusão um tanto inesperada: "Decididamente, não é demais dizer que
Aristóteles foi um excelente marido, um pai afetuoso e devotado, um bom
homem." Ela ilumina com uma luz bastante simpática a fisionomia do Estagirita,
cuja vida, na medida em que a conhecemos exatamente, revela poucos
acontecimentos e, afora a educação de Alexandre, é carente dos grandes
cargos que não raro acompanham os grandes livros consagrados ao Estado e
a seu governo.
Aristóteles não é nada mais do que um "intelectual", no melhor sentido da
palavra, um "letrado" que às vezes age não sem prudência, mas nunca sem
coragem ou sem retidão. Romperá com seu real discípulo depois do assassínio
de Calístenes; para retirá-la do cativeiro, desposará Pítia, sobrinha e filha
adotiva de seu amigo crucificado, Hérmias de Atárnea; com palavras tocantes,
cercará de zelos póstumos sua segunda esposa, Hérpilis, "que lhe foi muito
devotada".